segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Na ponta dos dedos

Da Fotografia, sabemos tratar-se de uma actividade iminentemente visual. Nela, e de longe, o sentido da visão costuma ser o mais solicitado. É através dele que a mensagem - mais ou menos complexa - presente nas fotografias que observamos passa para dentro de nós. Apreendemo-la porque vemos. E interpretamo-la porque vemos de determinada forma; cada um de nós! E as diferentes interpretações daí resultantes advêm das diferentes formas de ver.
E se, por instantes, deixássemos de ver com os olhos e passássemos a ver, por exemplo, com as mãos? Teríamos a mesma percepção das fotografias? E como será a relação que as pessoas que não podem fazer uso dos olhos para ver, têm com a Fotografia?
No início deste ano, no Entroncamento, vi-me confrontado com uma experiência inédita (para mim) neste domínio. Não, não se trata de nenhum daqueles fenómenos em que, alegadamente, aquela cidade ferroviária é fértil. Na realidade, tudo se passou entre pessoas bem comuns, na aparência, mas com muito de fenomenal, na essência.
Estou a referir-me a uma exposição de fotografia táctil que esteve patente, por breves dias, na Galeria Municipal daquela localidade. Da autoria de Paulo Abrantes (ao tempo, coordenador geral da Secção de Fotografia da Associação Académica de Coimbra), a exposição consistia em 16 fotos em relevo, e resultou de uma investigação feita por aquele fotógrafo, no sentido de proporcionar a pessoas cegas e amblíopes a possibilidade de ver fotografias, utilizando o sentido do tacto.
Para quem habitualmente utiliza a visão, as imagens afiguravam-se muito simplistas, resumindo-se à presença de um ou dois objectos - uma casa, uma árvore - com texturas muito pouco complexas. Mas é precisamente essa simplicidade que torna possível a apreensão da imagem por parte do público-alvo preferencial deste tipo de exposições, cegos e amblíopes, abrindo-lhes definitivamente o acesso à fotografia, como tive oportunidade de comprovar in loco. A variação do relevo, dentro de cada imagem, é resultado da variação da densidade dos respectivos tons. Com este meio de representação, torna-se mais fácil para os invisuais adquirirem novas convenções dos objectos do quotidiano; tudo isto, através do tacto.
O "núcleo central" de todo o processo reside num papel especial com revestimento de borracha, sobre o qual se fotocopia (ou imprime) a imagem original. O "toner" depositado (ou a tinta) serve de catalisador para a fase seguinte, que tem lugar numa impressora térmica, a temperaturas da ordem dos 110 ºC. Para ter uma ideia do relevo obtido, deixo aqui um detalhe, bastante ampliado, do relevo de uma parte da imagem.






3 comentários:

geocrusoe disse...

Pois, mas todas as novas formas de expressão artística começam simples e imperfeitas, quiçá nao seja essa um novo camimho para a fotografia do futuro.

José L. Diniz disse...

Caro geocrusoe,

O assunto não é novo, em termos absolutos. No Brasil, já se s lida com este assunto há anos. Na realidade, funciona mais como um abrir de portas a uma nova percepção da realidade, através da fotografia, para cegos e amblíopes.
Este é um exemplo de como a fotografia pode desempenhar um importante papel social.

MEF disse...

Olá, para deixar um pouco mais sobre esta técnica, uma reportagem sobre um projecto em que envolve a fotografia para cegos e para pessoas com baixa visão.

http://movimentodeexpressaofotografica.wordpress.com/2010/10/14/sociedade-civil-magazines-rtp-2/

Atenciosamente,

Luís Rocha | MEF