sábado, 29 de agosto de 2009

Ao mais alto nível

No ano de 2004, Portugal passou a dispor de cursos de Fotografia, no seu sistema de ensino superior, com o Instituto Politécnico de Tomar a ser a primeira escola a receber a respectiva autorização de funcionamento. No ano seguinte, foi a vez da cidade invicta, através da ESAP-Escola Superior Artística do Porto, possuir a sua licenciatura em Artes Visuais-Fotografia, na continuação de uma tradição de mais de duas décadas no ensino artístico. Em 2006, o IADE-Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing, de Lisboa, viu ser-lhe concedida autorização para funcionamento da sua licenciatura em Fotografia e Cultura Visual.
Também na capital, a Universidade Lusófona detém a mais jovem das quatro licenciaturas actualmente disponíveis.

Para o cidadão comum, ver a Fotografia ser integrada num tal nível de ensino - e não nos esqueçamos que, para além das licenciaturas referidas, já existem vários mestrados com especialização na área da arte fotográfica - poderá parecer estranho. Afinal, como já tenho ouvido várias vezes, basta carregar num botão para termos uma fotografia. É verdade! Mas também é verdade que preparar um sopa instantânea está longe de fazer de nós, cozinheiros. A Fotografia vai muito para além do mero registo de uma realidade (necessariamente, parcial, por via do enquadramento) que se nos apresente ou que procurámos activamente. A arte fotográfica não se resume aos aspectos técnicos básicos, da execução, mas necessita de abordagens científicas e conceptuais com profundidade que os cursos tradicionais não tinham vocação para ministrar. Tornava-se necessário, por isso, elevar o ensino da Fotografia para outro patamar, à semelhança do que vários países europeus já tinham feito há décadas, e abandonar a fórmula (gasta) de abordar os conceitos pela rama - dando a desculpa de que se tratava de um ensino "essencialmente prático" - e mergulhando nas profundezas do "porquê" das coisas. Essa é a grande diferença entre seguir uma receita inventada por outros, e trabalhar com criatividade.
Algumas correntes de opinião, com uma visão mais romântica, estabelecem que a aprendizagem da Fotografia deve ser feita individualmente, no dia a dia, fotografando muito e admirando as obras dos grandes mestres. Pessoalmente, opino que esta abordagem baseada na experiência de ouvir dizer e na contemplação e veneração - quiçá, idolatria relativamente a mestres de reconhecida valia - não permite evoluir na arte, da forma (e com a rapidez) desejável. O ensino, em instituições de reconhecida valia científica, é a forma mais rápida (mas, sobretudo, mais consistente) de lá chegar; e aquela que nos permite, depois, trilhar o nosso próprio caminho e atingir os objectivos a que nos propomos. A fotografia também se ensina! E foi com essa profunda convicção que integrei, em 2000 e 2001, a comissão instaladora da primeira licenciatura em Fotografia, na cidade de Lisboa.

3 comentários:

HS disse...

Excelentes notícias, desconhecia que já existiam licenciaturas de fotografia por cá ! Talvez esteja na altura de tirar o pó à mochila...

José L. Diniz disse...

Efectivamente, e apesar da resistência endiabrada que este País colocou à existência deste tipo de cursos, não deixa de ser interessante olhar para os números das inscrições e para comentários como o de HS. Tem-me sido difícil esquecer as razões apontadas pelos alunos do primeiro ano, no primeiro dia de aulas, quando nos conhecemos.
A apetência é muita; disso, não haja dúvidas.

elisa disse...

não existe uma só fórmula para as coisas - esse é o mistério - e todas as abordagens podem ser sérias, profundas e válidas. Não é garantido que uma licenciatura produza um artista ou aprofunde o ser, nem é uma fatalidade que um observador «romântico», como diz, esteja condenado ao esmagamento, ao fracasso, à mediocridade e à superficialidade. É sempre bom manter um distanciamento contemplativo em relação às coisas. Embora não considere a via académica como sendo a única conducente ao enriquecimento de uma Pessoa, não deixo de aplaudir a sistematização proporcionada pela licenciatura, e só não me meto nisso, neste momento,porque tenho crianças pequenas.